“Não há nada que não possamos resolver com os atuais computadores!” disse-me entusiasmada, enquanto falávamos sobre os recentes avanços tecnológicos, uma das minhas alunas do curso de Tecnologia em Desenvolvimento de Software. A afirmação ousada, mas característica dos estudantes de computação, não me pareceu correta ou, pelo menos, carecia de maiores esclarecimentos. Perguntei a que tipos de problemas ela estava se referindo, já que eu enxergava inúmeros, cujas soluções estavam muito distantes; mesmo com o auxílio dos computadores. A estudante não retrocedeu. Disse que estava se referindo, de fato, a todos os problemas, e me desafiou a indicar um, cuja solução não fosse possível. Surpreso, pensei alguns segundos antes de dizer. Tive a clara impressão de que meus reflexos e meu raciocínio eram mais lentos que os dela. De repente, lembrei que naquela manhã chegara atrasado ao trabalho em virtude de um grande congestionamento. Disse então: “Trânsito. O trânsito nas grandes cidades é um problema complexo”. Ela, imediatamente, como se não precisasse pensar, disse que não julgava o trânsito um problema complexo, pois considerava que todos, ou pelo menos a maioria, conhecia a solução para o problema dos congestionamentos. Disse ainda que o que faltava era empenho para a implementação das medidas necessárias. Eu fiquei curioso com relação às “medidas necessárias”, mas não perguntei para não tirá-la do foco. Eu estava disposto a apontar um problema que ela reconhecesse que não éramos capazes de resolver. Mesmo com o apoio dos mais modernos computadores. E havia muitos. Eu sabia disso. Desde problemas matemáticos, como os pertencentes à classe “NP-Completo” que, há muito, desafiam a capacidade de processar das máquinas. Passando por problemas da Física, como “o dos três corpos em movimento” e, porque não, problemas do mercado financeiro que, se fossem plenamente solucionáveis com o apoio dos computadores, nós não veríamos, como acontece com certa freqüência, aplicadores perdendo dinheiro nas bolsas de valores: todos sempre ganhariam. No entanto eu não gostaria de falar desses problemas. Queria algo mais “cotidiano”, que afetasse as pessoas de forma mais evidente.

 

Decidi arriscar, pois falei sem muita convicção: citei o problema do desemprego. Disse que os “atuais computadores” não têm nos auxiliado na produção de novos postos de trabalho. Eu ainda pretendia dizer mais algumas coisas sobre isso. Talvez dissesse que os computadores têm, pelo contrário, eliminado algumas profissões nos últimos anos ou algo parecido com isso. Mas percebi um leve sorriso na expressão dela. Decidi então parar por ali. Parecia, novamente, que ela discordava. Fiquei esperando ela dizer alguma coisa. Mas antes disso, abriu a lata de Coca-Cola Light gelada que o assistente da cantina houvera acabado de trazer e bebeu um pouco. Verificou ainda o horário no telefone celular: faltavam poucos minutos para o início da próxima aula. Foi só então que comentou o “problema do desemprego”. Foi breve. Disse que não via problemas nesse campo. Disse que estávamos em um período de transição e que o desemprego é necessário e é importante. “Sempre haverá desempregados. O que não pode acontecer, e acontece menos a cada dia, é das mesmas pessoas ficarem desempregadas muito tempo. Tem de haver uma espécie de rodízio...”. E continuou: “Os computadores podem e estão nos ajudando muito nessa área; quando eles estiverem totalmente integrados à nossa vida, eu estou certa, haverá menos problemas e mais tempo livre para todos; como no livro Ócio Criativo do Domênico de Masi.”.  De repente, um outro estudante, há alguns metros dali, a chamou. Ela interrompeu. Olhou-o, sorriu espontânea e acenou indicando que estava indo. Já se levantando da cadeira, disse que poderíamos continuar a conversar num outro momento. Eu sorri e disse que sim.

 

Ainda que não a tivesse convencido, como pretendi, aquela conversa me deixou contente. De certa forma, mesmo que não concordasse com tudo o que ela dissera, fiquei mais confortável com relação ao nosso futuro. Menos. Muito menos pelos modernos computadores e muita mais por reconhecer que havia jovens inteligentes, idealistas e ousados como aquela menina.